Expatriação desafios/oportunidades

Expatriação – desafios e oportunidades na visão de Larice Sena

Conheci a Larice na Aliança Francesa em Paris, sua simpatia somado ao seu sorriso me despertou o interesse em acompanhar sua trajetória em Paris. Mãe de dois lindos filhos, é formada em arquitetura com especialização em arquitetura de interiores, morou durante três anos na cidade luz acompanhando seu marido expatriado.

Através da sua experiência e de uma visão particular ela divide conosco um pouco da sua história em Paris.

Obrigada Larice pela sua participação.

“Era meados de 2013 quando fui surpreendida pelo meu marido me perguntando… e se ele recebesse uma proposta de expatriação?  A minha resposta foi que poderíamos analisar a proposta, mas descrente que aquilo pudesse acontecer. Pouco depois veio o convite da empresa, uma proposta de expatriação de 3 anos em Paris. Parece mentira, mas foi uma decisão muito difícil a ser tomada, pois já éramos uma família com dois filhos pequenos, sendo uma bebê de poucos meses.

Levou algum tempo de negociação com a empresa, até aceitarmos a proposta. Quando percebi que aquilo realmente iria acontecer, minha primeira atitude foi começar a fazer um curso de francês com uma professora particular.

O segundo semestre de 2013 foi de preparação, principalmente psicológica, porque não sabíamos quais seriam nossas dificuldades, iriamos sair da nossa zona de conforto. Eu me preocupava muito com a adaptação do Matheus, que na época tinha quatro anos. Em novembro, eu e meu marido fomos á Paris ver apartamento e escola. Foi uma semana intensa e frustradora, porque as escolas que tínhamos pesquisado não tinham vagas. Os apartamentos, para mim que sou arquiteta, era cada um pior que o outro, todos muitos antigos, sombrios, úmidos, até que o último da lista de visitação era mais novo, e para completar a janela do meu quarto tinha a vista da dama de ferro, Torre Eiffel.

Em janeiro de 2014 embarcamos para essa experiência. Tivemos a sorte de agilizar tudo de longe e, quando chegamos o apartamento já estava montado, com móveis e eletrodomésticos. Era inverno, e saímos do Brasil com aquele calor. Chegamos numa terça, com uma entrevista numa escola marcada para a quarta feira, era a nossa esperança de conseguir uma vaga para o Matheus.

Pois é, lá não basta ter dinheiro para entrar na escola que quer, a direção da escola faz uma entrevista para conhecer a família e daí aceitar ou não aquela família na escola. Decidimos por uma escola privada, porque como não conhecíamos o sistema de ensino e a estrutura da escola pública, ficamos com medo de que nosso filho que não falava nada de francês não tivesse uma atenção especial (coisa de mãe). Fomos aceitos na escola e na segunda feira seguinte ele já começou.

Para mim, o início foi muito difícil, eu que sempre trabalhei, de uma hora para outra me vi dona de casa. Os dias não passavam e a minha vontade era de voltar para a vida que eu tinha deixado em São Paulo.  A primeira grande barreira é a língua, as aulas particulares que eu fiz antes de partir, tinha pego apenas a base, então eu entendia um pouco, mas tinha muita vergonha de falar errado. Eu estudava sozinha em casa, pois não havia conseguido vaga na creche para a Alice. No começo a burocracia para legalizar documentação, fazer habilitação francesa, encontrar pediatra.. Eu diria que o primeiro ano foi de adaptação, depois a gente se acostuma com a nova vida. Passamos o longo inverno sonhando com o Brasil, porque aqueles dias cinzas são deprimentes.

São muitos os desafios diários, eu precisei tomar coragem para encarar os desafios e tirar proveito da experiência. Quando eu resolvi encarar, corri atrás e quase no fim do primeiro ano finalmente consegui uma vaga numa creche publica para a pequena, foi quando eu fui fazer um curso intensivo da língua e na sequencia fiz uma pós graduação. Sabendo que uma vez estrangeiro, por mais que você fale a língua, more, trabalhe, você sempre vai ser estrangeiro, esse é um ponto muito forte pois a gente não se sente em casa. Foram três anos de muitas experiências, viagens e aprendizados. Criamos laços com esse país. As crianças se adaptaram super bem, em seis meses o Matheus já tinha sotaque parisiense, a língua para eles, ao contrario da gente, é muito mais fácil. Sem falar que a cidade oferece muita coisa voltada para as crianças, os vários parques públicos, esses são inexplicáveis. O custo de vida é altíssimo, e os franceses, a maioria mal humorado. Mas aprendemos a lidar com eles, o segredo é você se impor e eles te respeitam!!

Passados esses anos a gente se depara com o novo desafio, a volta. Não foi uma decisão fácil, foi um novo desafio, de re-adaptação. Três  anos morando num outro lugar, com hábitos e costumes diferentes mesmo que não queiramos nos adequamos a tais.

Fomos apenas com objetos e  voltamos com muitos sentimentos e experiências. Estando longe a gente entende o quanto é bom estar perto.

A falta do abraço da família, de ter que estar ausente nos momentos felizes e nos momentos difíceis como a perda de alguém tão importante. É um sentimento muito contraditório, onde deixamos de ser quem éramos e nos tornamos muito mais fortes. Morando fora a gente aprende a ser mais aberto  as diferenças, com uma capacidade incrível de compreensão, mas também a ser menos tolerante em alguns casos. É uma aula diária de se colocar no lugar do outro, porque como falei antes, estando fora sempre seremos estrangeiro. A vida passa a ser feita de momentos, que são vividos sempre intensamente. Passamos a dar valor e aproveitar as pequenas coisas da vida.

Para nós, como família, foi uma experiência de união, de fortificar ainda mais nossos laços, porque estando fora somos nós e nós. Mas como Deus é tão bom, ele colocou no nosso caminho os amigos, e esses se tornaram nossa família, e sem dúvida é a nossa maior saudade. Saudade da convivência diária, mas sabendo que esses vamos levar para o resto da vida.

Nós crescemos, amadurecemos, e sem dúvida morar fora nos permitiu uma grande evolução.

Agora, há quatro meses no Brasil, fica a saudade do que ficou para trás ( e a minha vontade de voltar..rs). Termino aqui, com o sentimento de que valeu muito a pena. E que venha a próxima expatriação! 😊”

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