Expatriação desafios/oportunidades

Expatriação – desafios e oportunidades na visão de Marcelo Ferreira

Para quem não sabe o Marcelo é meu marido, diferente da minha visão de acompanhante de um expatriado ele resume sobre o seu olhar particular e suas experiências, os desafios e oportunidades de ser um expatriado.

Marcelo Alexandre Brito Ferreira é economista pela FEA-USP e pós-graduado pelo CEAG-FGV com especialização em bancos. Executivo do mercado de crédito e Cobrança com mais de 20 anos de experiência na atividade de crédito e cobrança. Expatriado desde 2015 ele relata para nós suas experiências.

Obrigada Marcelo pela sua participação no blog.

Comecei a trabalhar cedo, aos 14 anos de idade e antes de ser trainee, já tinha sido desde funcionário de vídeo locadora na adolescência, passando por vendedor de anúncios numa revista trilíngue, estagiário no Citibank e até funcionário concursado do Banco do Brasil, onde pedi demissão para entrar na Credicard.

Lembro que meu sonho desde a época de estagiário no Citibank era ser executivo de uma multinacional para viajar para fora do Brasil. Lembro-me dos anos que estudei na União Cultural Brasil – Estados Unidos aos sábados, para aprender Inglês e quando surgiu a primeira oportunidade para fazer um curso de uma inovação na cobrança da Credicard, a implantação de um discador preditivo, fui enviado a Atlanta em 1996 para ter um treinamento na Sede da Melita.

Na C&A surgiu a segunda oportunidade de viajar, agora para o TRIAD em 2000 para me formar em estratégias em árvores de decisão e fui enviado a São Francisco, na sede da Fair Isaac.

Estas duas experiências me mostraram que a língua era e continua sendo um grande diferencial para a minha carreira profissional.

Interessante que nesta época eu era cliente e nem sabia. Foi quando passei a trabalhar nos grandes contact centers e em empresas de cobrança que senti na pele e no estômago os desafios da terceirização do mercado de cobrança. Caso eu não tivesse entrado na Cetelem, já tinha planos para voltar ao setor público, tamanha a dificuldade que é sobreviver nesta atividade.

Quando ingressei na Cetelem, a utilização do inglês foi chave para receber os franceses que todo ano vinham ao Brasil. Mas a grande surpresa veio já em 2010, quando fui participar do meu primeiro seminário de cobrança do grupo em Paris. Era a primeira vez que viajaria para o velho continente.

Chegando aqui vi que embora o inglês seja a língua internacional do grupo, é o francês que domina. Então quando voltei para o Brasil iniciei meus estudos nesta língua “dificile”. Conforme eu progredia na língua, o relacionamento com os franceses melhorava e nos seminários seguintes passei a melhor representar o Brasil aqui na França.

Foi assim, num processo natural e gradativo que a expatriação surgiu e depois de quatro anos estudando francês, vim para cá confiante que não teria grandes problemas com a língua: puro engano.

Por aqui, você precisa falar francês não só na vida cotidiana, mas principalmente no trabalho, pois os grandes chefes como chamamos, são franceses em sua maioria esmagadora. Este cenário tem evoluído também. Neste ano um brasileiro foi promovido a Diretor de Cobrança do Grupo e fiquei muito orgulhoso não só por não ser um francês, mas principalmente por ser brasileiro. Em nossa sede, temos mais de 2.400 funcionários e somos seis brasileiros. A maioria absoluta é de franceses.

Para mim, que pensava que tinha um bom francês, passei a ser cortado no meio de minhas falas constantemente sendo corrigido por erros de pronúncia. Percebi que aquilo que se escreve em francês não tem relação direta com a pronúncia (como no Espanhol ou Português). Estas situações, que de início eu encarava numa boa, com o passar do tempo passou a me incomodar. Obviamente minha pronúncia evoluiu significativamente (de raiva), mas aqui vale uma reflexão que quando temos os gringos no Brasil falando errado o português, nunca os corrigimos, pois o que vale é a intenção e ser entendido certo? Sim, mas no Brasil, não por aqui. Você sente que está falando bem quando entende tudo e reage rapidamente. Hoje em dia, quando ainda insistem em tentar me corrigir, eu lanço uma piada e até falo em português para que sintam um pouco o gosto de não entenderem uma língua diferente. Ainda mais que posso falar com meu diretor em português (risos).

Em seguida a este ponto sobre a língua, cabe aqui falarmos sobre a decisão de deixar o Brasil. Esta foi uma decisão que mudou minha vida, pois quando pensamos normalmente numa expatriação, pensamos que além de viajar para o exterior, o pensamento é que vamos ganhar muito dinheiro e ficamos com uma ideia sempre positiva deste processo. No final das contas, na minha avaliação, é positiva mesmo, mas não para ficar rico e nem para ser turista e sim como experiência e maturidade.

Porque coloco estes pontos? Pelo fato de não saber previamente como seria a realidade da vida no exterior. Costumo dizer que Paris tem um marketing de sucesso, pois sempre pensamos nas propagandas da Air France, nas novelas que mencionam Paris como glamour e símbolo de riqueza. Sempre mostrando imagens de um dia de sol, sendo que mais da metade do ano faz frio e aprendemos o real significado das estações (primavera, verão, outono e inverno). No dia a dia vemos que o estereótipo do francês fica só na propaganda e que temos uma sociedade com uma diversidade enorme e cheia de problemas que hoje estão bem visíveis com toda a questão dos imigrantes vindos de países como a Síria.

Uma coisa é ser turista em Paris, outra coisa é ser parisiense. Como gostaria de ganhar meu salário em euros e gastar em reais. Na realidade o custo de vida por aqui é caríssimo. Por isto coloco aqui como segundo ponto crucial antes de tomar a decisão é que esta seja uma decisão conjunta com quem estiver vindo com você. Se estiver vindo com sua esposa, por exemplo, lembre-se que se ela parar de trabalhar e deixar de receber o salário no Brasil, seu salário deverá passar a ser a renda da família. E o mais importante: sua esposa passará a ser dona de casa e caso não tenha uma atividade para realizar, como o curso de francês ou um MBA, as horas do dia demoram a passar dentro de um apartamento. Pois como disse, você não é mais turista, e sim um morador que não tem condições de ficar tomando cafés ou almoçando como os turistas fazem.

Vamos então para a chegada à sua nova casa no novo país. Diferente do Brasil que recebe pessoas do mundo inteiro de braços abertos, aqui na França descobri rapidamente a famosa burocracia francesa. Para ficar por mais que três meses, você precisa de um visto de permanência que é emitido por cada prefeitura da cidade ou região que você mora. Então precisei ir algumas vezes para providenciar toda esta documentação não só para mim, mas para minha esposa e também para o meu enteado. Outro fato curioso foi com relação a minha carteira de motorista (a “permis de conduire”) que depois de muito custo no Brasil (tive minha carteira suspensa e para recuperá-la até curso no Detran fiz), precisei trocá-la pela carteira francesa. Sim, a minha habilitação brasileira ficou na prefeitura e eles me deram uma carteira francesa. Quando vou ao Brasil, estou portando uma habilitação estrangeira (risos). Fica aqui um reconhecimento sobre esta estrutura pública de serviço, em que mesmo com todo o trabalho que tive, a qualidade do serviço é bem superior se comparamos, infelizmente, a um dia de burocracia no Detran que fica na Avenida do Estado, no Centro de São Paulo para fazer o licenciamento de um carro.

Passada esta etapa de adaptação que dura aproximadamente o primeiro ano da expatriação, você passa a ter uma vida normal. Você passa o inverno sentindo falta do Brasil e espera a primavera chegar e não quer viajar mais para o Brasil em julho, pois é melhor aproveitar o sol que não vai durar para sempre por aqui. A melhor época para viajar para o meu país natal é no final do ano, que fugimos do frio e aproveitamos o verão por aí.

Uma constatação é que embora você fale francês, tenha documentos franceses, trabalhe e more na França, você não é francês, você sempre será um estrangeiro, no nosso caso, ser brasileiro é exótico, pois eles até gostam da gente. Temos bons jogadores de futebol que atuam por aqui e estamos sempre sorrindo diferente da maioria daqui que sempre está de mau humor.

Todo processo de expatriação tem um início com toda a negociação para a vinda, o meio, com a adaptação e maturidade no seu país hospedeiro e por fim, o final do contrato que geralmente é de três anos. Este é o momento que me encontro agora. Aprendi que a expatriação é um ticket de ida somente. A volta é muito difícil, pois a posição que você ocupava em seu país de origem está com outra pessoa e você, após esta etapa da carreira, precisa evoluir para novos desafios. Num grupo gigante como o BNP Paribas, presente em mais de 30 países, existe toda uma hierarquia de países em relação a tamanho e complexidade dos negócios. Assim, a continuação natural deste processo passa também por uma nova expatriação em que a experiência atual é necessária para outro país diferente daquele que você veio. Uma alternativa também é a prorrogação do contrato que pode variar entre um e dois anos. Após este período, em ficando por aqui e não retornando para o Brasil, a solução é a que chamamos de localização do contrato em que você passa a ser local como todos os demais funcionários e sem direito a benefícios importantes como o subsídio para o aluguel do apartamento que moro.

O contraponto de toda esta minha trajetória que compartilho aqui é a realidade do mercado de cobrança para profissionais com a minha experiência. No início, podemos ver que participei de grandes desafios em grandes empresas e que permanecia em média dois anos em cada uma. Fui demitido três vezes das seis empresas que tive a honra de trabalhar. No final tenho que ser grato pelos bons e pelos maus momentos, pois foi com todo este aprendizado que me deixou forte para chegar tão longe.

Tive uma grande sorte (ou destino) de estar fora do Brasil durante a pior crise econômica que o nosso país já atravessou. Tenho acompanhado amigos e conhecidos enfrentando o desemprego num mercado que se concentra cada vez mais e sempre procuro ajudar no processo de recolocação.

Por outro lado, ser um profissional de cobrança no Brasil faz de você um executivo de destaque em qualquer lugar do mundo, pois ultrapassada a etapa de adaptação a uma nova cultura, você percebe que possui um grau de senioridade superior e que, através de sua experiência, consegue agregar valor a diferentes países, pois o ciclo de crédito é o mesmo em todo o mundo.

Termino aqui com um sentimento muito positivo e agradeço pela oportunidade de compartilhar esta parte da minha história de vida.

10 thoughts on “Expatriação – desafios e oportunidades na visão de Marcelo Ferreira

  1. Pessoal, excelente relato. Parabéns pelo blog.
    Marcelão, tivemos algumas experiência juntos na Contax e sempre admirei seu trabalho, continue assim. Sorte para vocês nas próximas etapas e precisando de algo estou a disposição para auxiliar de alguma forma. Adoro a Europa, já morei em Barcelona e tive a oportunidade de conhecer ótimas lugares por aí. Grande abraço.

  2. Excelente depoimento.
    Do Marcelo, desde que atuamos juntos na área de Crédito / Credicard até a Cetelem, foram marcantes para mim a sua humildade, mesmo com todo potencial, no relacionamento com todos e o perfil parceiro. Tenho muito a agradecer ao Marcelo pelo apoio que me deu, quando mais precisei.
    Sobre essa alavancagem em sua carreira é apenas uma consequências do seu esforço e dedicação.
    Outras etapas virão e ficam aqui meus desejos de mais e mais Sucesso.

  3. Marcelo trabalhei contigo nesse mundo de cobrança aqui no Brasil. Daqui 15 dias serei também uma expatriada só que na terra da rainha. Esse post de antemão já me ajudou. Espero que a minha adaptação e da família ( também vou com filha e marido) não seja tão difícil como imagino. Abraços e sucesso.

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