Minhas experiências

Justificativa para o distanciamento dos pais sobre o meu olhar particular

Hoje assisti um programa que falava sobre o uso excessivo do celular pelos pais causando um distanciamento dos filhos, um tema interessante para o século XXI. Comecei então a refletir e acabei me remetendo a infância, sim sempre a infância, numa época em que o celular se fazia presente somente nos desenhos dos Jetsons e que o telefone fixo era para poucos.

Como foi minha infância sem o celular? O que distraia meus pais a ponto de se distanciarem de mim?

Num passado não muito distante e ai não vou falar de datas pois não vem ao caso,  me lembro que para falar com alguém de um outro estado por exemplo, era necessário ligar para a telefonista, passar os dados da pessoa com quem se queria falar e aguardar alguns muitos minutos até que a pessoa viesse ao local para lhe atender. Parece até brincadeira se comparado aos dias atuais, mas é a mais pura verdade.

Como sou inocente né, mesmo não querendo falar de datas acabei me entregando, pela história já deu para perceber que faz muito tempo ….

Quando pequena eu passava o dia com a minha mãe enquanto meu pai trabalhava. As poucas vezes em que a família saia junta era para visitar parentes nos finais de semana ou ir à missa.

Meu pai sempre foi mais quieto a não ser quando bebia umas “pinguinhas” e ai o sorriso vinha com facilidade juntamente com sua cantoria e piadas não muito engraçadas, já em relação a minha mãe sempre sorridente, me recordo do seu cuidar muito carinhoso conosco, seu foco era sempre o nosso bem estar, a casa limpa, a roupa lavada, a comidinha simples mas bem caprichada, era ela que me levava e buscava todos os dias na escola e rotineiramente nos fins de tarde, se sentava na calçada com as vizinhas enquanto nós crianças, brincávamos de pega-pega, esconde-esconde, queimada…

Não me recordo de passeios à parques, livrarias, shopping center  e nem tao pouco a restaurantes, fico tentando me recordar se houve algum momento da minha infância em que brinquei com meus pais, os dois juntos sabe, e chega ser estranho, talvez tenha a ver com a minha idade, será que já posso considerar isso indícios de alzheimer? Brincadeirinha!

Ao mesmo tempo me recordo de uma infância baseada no amor através do cuidado,  havia horários para tudo, horário para dormir, acordar, tomar banho, assistir TV e fazer lição, o cuidado também em me responsabilizar por alguma tarefa doméstica, nada pesado, mas fazia parte da educação que recebi, criar responsabilidades através de uma rotina na qual incluía também algum trabalho.

Me recordo ainda da participação dos dois sempre que possível nas reuniões escolares e nas festinhas da escola. Algumas fotos também me trazem recordações como é o caso da foto do meu primeiro dia de escola, uma outra também em que eu estou sentada num cavalo ao lado dos dois, a foto da minha primeira comunhão e que me faz reviver momentos especiais. Nós íamos à missa todos os domingos, era o passeio semanal da família e eu adorava, era o dia em que acordávamos cedo, nos arrumávamos com a melhor roupa e caminhávamos por uns 15 minutos até a igreja de mãos dadas, as vezes eu brincava de voar pulando por uma poça e outra enquanto os dois seguravam firme meus bracinhos e me levantavam pelo ar, era bastante divertido.

Não me recordo de ter brincado de boneca com meu pai ou de joguinhos com minha mãe e vice e versa, mas me recordo de atitudes de carinho, de preocupação, de amor. Lembro ainda do meu pai chegando todas as manhãs do trabalho com um saquinho no bolso, era a sobremesa do seu jantar, ele em vez de comer preferia trazê-la para mim. Não havia meios de comunicação enquanto estávamos separados, que pena, mas a cada uma dessas atitudes relatadas sinto muito amor envolvido.

Pelo meu olhar particular, não sei dizer o que eu poderia usar como justificativa para o distanciamento deles em relação a mim se eu pensar que nunca estavam brincando, lendo, passeando no parque ou mesmo andando de bicicleta comigo, mas se eu pensar em todo o cuidado, preocupação e amor colocado nesses pequenos gestos relatados no texto, posso afirmar que nunca houve nada que pudesse justificar o distanciamento deles comigo, só posso concluir que sempre estiveram muito presentes em minha infância e que tudo é uma questão de ponto de vista.

Foi muito bom recordar!

Simone Sampaio

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