Minhas experiências

Em terras Argentinas

Bom, agora sim posso dizer que estou morando na Argentina.

Sai da França no final de Fevereiro/2018 e somente agora, quase três meses depois, eu e meu marido temos um lugar para chamar de nosso, pelo menos por mais dois anos.

Durante esse tempo, usando um ditado antigo “enfiei o pé na jaca”, com aquela desculpinha de que o Brasil é aqui do lado, “só” duas horinhas de voo, acabei indo visitar minha terrinha natal duas vezes e pela primeira vez, sem precisar ir ao velório de nenhum ente querido e sem carregar a culpa por ter escolhido um caminho só de ida.

Apesar do foco ter sido a minha saúde, pude fazer algo que eu gosto demais, estar com meus familiares, estar com meus amigos e sorrir, sorrir de coração aberto, sorrir com vontade de sorrir, sorrir até a bochecha doer, sorrir até engasgar, sorrir até tossir de tanto sorrir. Claro que nunca consigo ver todos que eu gostaria, mas a energia que recebo é tão tão boa, que volto com a sensação de amor preenchido.

Parece que desta vez eu desacelerei! Quem disse mesmo que a gente aprende com os erros, ou que podemos fazer melhor com uma segunda chance? Pois é, controlei minha ansiedade e aproveitei o presente deste país Latino, o sol. A cada amanhecer um quadro surge no céu com suas cores alaranjadas “uma pausa para gargalhar”, sim porque o laranja me persegue, quem leu na categoria do blog minhas experiências (Minha casa, minhas lembranças) já entendeu, mas continuando… o sol enorme, nascendo com seus raios tímidos e depois de alguns minutos já com uma força capaz de cegar.

Tive o privilégio de ficar durante esse período num “loft”, chique essa palavra né kkkk mas para quem não conhece nada mais é que um cômodo com cozinha, quarto e sala, tudo junto e misturado, sem paredes para separar nada “exceto” o banheiro kkkk e com uma varanda de frente para o enooooorme  mar da prata. Aqueles quase 8 meses de céu cinza com o qual convivi a cada ano em que morei em Paris desapareceram da minha memória num piscar de olhos, ou melhor, num piscar para o sol e então não resisti, tive que me fingir de lagartixa e me lambuzar de vitamina D, sem medo de ser feliz.

Também desacelerei com a loucura de aprender a língua como uma questão de vida ou morte, apesar de ainda não falar o espanhol ou castelhano é possível sobreviver sem muitas dificuldades, os Argentinos tem demonstrado muita gentileza e alegria. Por enquanto vou repetindo as palavras que ouço, adaptando um sotaque ainda tímido e quando não sei como dizer, recorro ao tradutor ou então vai na mímica mesmo, eles entram na brincadeira, sorriem junto e ao final chego no meu objetivo.

Uma coisa bacana foi que conseguimos usar todos os nossos móveis fazendo algumas adequações na decoração, mas que ao final ficou com o nosso toque de casal.

Hoje cada objeto, cada móvel que carregamos, traz consigo um significado diferente, traz uma história, é como se ele tivesse vida própria e assim pudesse ter um começo, meio e continuasse caminhando para um fim, por exemplo, um vaso vintage comprado por 2 euros numa feira de rua que acontece uma vez por ano no bairro onde morei em Paris, ou então alguns móveis doados por um casal brasileiro, uma coleção de livros em francês do meu mestrado, o sofá e a mesa de jantar que vem nos acompanhando desde o Brasil e sem contar na variedade de plaquinhas que temos adquirido marcando como recordação os lugares por onde já passamos.

Mas nesta vida nômade também vamos nos deparando com os cacos, as perdas e as rachaduras dos objetos que durante a mudança não aguentam a pressão do alto mar, o peso que é carregar seus parceiros móveis nas costas, e assim dão fim a sua história mas com participação especial dentro das nossas histórias.

Isso sim são móveis com histórias! E põe histórias nisso.

E assim é a vida de um expatriado, nada de maresia. Quando tudo parece tranquilo vem a onda e agita a areia, tira a transparência da água e muda tudo de lugar para aos poucos tudo ir se adaptando no seu novo lugar.

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