Minhas experiências

Expor com palavras o que o coração sente, me deixa aliviada e mais sorridente

Cá estou eu, começando mais uma nova vida, ou seria mais uma nova etapa da vida?

Cheguei a dois dias e me sinto como um bebe, preciso de alguém para me ajudar, falo muito pouco e ainda bem atrapalhado, pareço entender o que escuto, mas na verdade é o contexto da situação que me direciona a um certo entendimento.

Ando devagar, quero olhar tudo, reparar nos detalhes para assim conseguir ter uma referência para a minha memória, poder decorar o caminho de volta, “uma análise do ambiente” na linguagem da administração…

O silêncio é ainda o mais conhecido no meio de toda essa mudança, e as horas que demoram passar dentro de uma caixinha de pedras, me remetem a uma zona de conforto na qual já se tornou habitual.

Tenho uma personalidade bastante forte, aprendi sobre independência muito cedo, gostei bastante confesso, e acho que é essa uma das características que me faz ter uma afinidade muito forte com os gatos.

Venho reparando nas atitudes do Charlie (minha bolinha de pelos), ele vem participando ativamente dessa vida nômade que é a expatriação, e percebi uma mudança eu seu comportamento um pouco diferente das outras vezes, ele parece estar mais calmo…ou seria menos ansioso?

Achou um lugar que lhe deu segurança e passa a maior parte do tempo ali…horas se lambendo, horas observando, horas cochilando. Sinto as vezes uma inquietude da sua parte, mas logo ele se acalma e volta a meditar…

As vezes eu abuso na atitude e dou uma de intrometida, na verdade em busca de carinho confesso e o chamo, converso, ou melhor, falo sozinha… tento atrair sua atenção oferecendo comida, mas as tentativas na maioria das vezes são em vão, ele prefere o seu cantinho e só sai de lá quando realmente algo lhe interessa. Um tanto egoísta mesmo!

Quando a noite chega, ele dá o ar da graça, parece se sentir mais seguro e aos poucos vai deixando seu cheiro nos cantinhos do pequeno apartamento. É nesses momentos em que ele mantém uma aproximação maior comigo, trocamos olhares, carinho e compartilhamos dos mesmos sentimentos, a insegurança, o medo do novo, do diferente, do desconhecido.

Não sei dizer se ele pensa ou se é puro instinto animal, mas se pensar, tenho certeza que também deve se perguntar: aonde eu vim parar e para onde esse caminho vai dar?

As vezes ele surpreende, se joga no chão próximo ao meu pé e com a barriguinha pra cima parece estar se sentindo a vontade, mas basta um pequeno barulho para ele logo levantar e se pôr em posição de defesa.

A analogia comigo é a mesma, dentro da caixinha de pedras também me sinto mais segura, reativa para algumas atitudes e até mesmo para demonstrações de afeto. A vontade de descobrir o novo existe, claro, mas ainda preciso estudar mais o ambiente para não me perder no meio do caminho e dar de encontro com o fantasma do arrependimento.

Sabe aquele ditado que diz: “Nunca vá ao mercado com fome”, ou “nunca tome uma decisão num momento de raiva”

Neste momento a independência, só serve para atrapalhar.  Ela mexe com a ansiedade, quer passar por cima da faixa proibida, mascara uma segurança que não existe e acaba te fazendo sentir uma frustada por não conseguir fazer metade do que gostaria de ter feito.

Penso que devo aprender com o Charlie a ter paciência pois ser independente não é dos males o pior.

Respeitar o tempo, andar devagar, repetir os caminhos para não se perder e aceitar na sua hora o acolhimento de quem quer ajudar, é mais algumas das características que faz desse bichano um sábio animal.

Esse gatinho na minha vida não é por acaso.

Será que eu seria uma boa escritora de dramaturgia? Ficção realmente nunca foi o meu forte, gosto de expor com palavras o que o coração sente, me deixa aliviada e sinceramente, mais sorridente.

Simone Sampaio

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