Mãe a distância

Hoje ele me ligou

Hoje ele me ligou, sua voz estava baixa, um pouco séria, digamos triste ou seria decepcionado?

Ele não havia conseguido o resultado esperado na primeira prova da Universidade. Ele queria uma palavra de sustentação, sofria com a vergonha e queria ser acolhido.

Para uma visão mais madura, algo normal. Ele não tinha se dado conta das diversas mudanças ocorridas nos primeiros meses de vida solo.

Fui buscar na memória minha experiência com 12 anos quando recebi a informação de que eu havia repetido de ano (6º série). Um sentimento de surpresa, medo, vergonha, decepção. Frustração é a palavra que resumiria tudo. As perguntas começaram a se formar, como eu iria olhar para os meus pais, para mim mãe em particular? Como contar à eles que eu falhei? Mas tive que enfrentar! Com a voz um pouco rouca e olhar perdido, dei a notícia mais triste que meus pais poderiam ter recebido de mim, repeti de ano!

Ela (minha mãe) ficou calada, nem ao menos um sermão, nada…nada…nada!

Meu pai mudo, não me apontou o cinto, não levantou o sapato, não me colocou de castigo…

Aquele momento parecia uma eternidade… nunca quis tanto que o tempo passasse, que a luz se apagasse, que o carteiro gritasse, que o cachorro uivasse.

Em seguida me retirei e fui para o quarto dos meus pais, me joguei na cama e sozinha me pus a chorar. Muitas e muitas lágrimas caíram, mais uma vez o sentimento de tristeza, frustração, vergonha, e um novo sentimento surgiu, o sentimento de indignação. Por que não me bateram? Por que não gritaram comigo? Por que não me colocaram de castigo? Por que? Por que? Por que?

Não precisou muito para que eu tivesse as respostas.

No início das aulas no ano seguinte, minhas amigas não estavam mais comigo, todas haviam passado de ano enquanto eu, continuava na 6º série. Jurei para mim mesma que não passaria por aquela situação novamente e naquele momento eu entendi a falta de reação dos meus pais, eles sabiam que o ano seguinte seria muito difícil para mim, e que a própria experiência, seria suficiente para rever meus conceitos em relação a responsabilidades.

Essa lembrança me ajudou a saber como agir com ele, o que dizer num momento de decepção, de vergonha que ele estava passando. Talvez ele tenha subestimado o que é sério, sua alto confiança o cegou, uma nova juventude desabrochou.

A liberdade não vem sozinha, tudo na vida tem seu preço.

Mesmo antes que eu continuasse a falar, ele refletiu, avaliou suas atitudes, identificou suas falhas e se comprometeu com objetivos.

De um lado um coração acalado, de outro um coração agigantado, pronto para acalmar tudo que venha dele, um coração com um amor pulsante, gigante, contagiante, sem fim.

A palavra de conforto veio e pude ouvir o suspiro de conforto do outro lado da linha.

Como estudante eu também falhei, mas aprendi que algumas vezes é necessário descer degraus para voltar a subi-los com mais confiança. Não é o fim do mundo não atingir um resultado esperado, as vezes isso vai acontecer, seja de uma forma ou de outra, com ou sem dor, mas uma coisa é certa, a segunda chance será muito melhor compreendida e fará parte do seu caderno de lembranças da vida.

E eu? Eu estarei aqui sempre, para te ouvir, para te acolher e para aplaudir seu reconhecimento, seu amadurecimento.

Bem vindo meu filho querido ao mundo dos adultos, apesar de você ser para mim uma eterna criança.

Simone Sampaio

 

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