Mãe a distância

Ele cresceu ou melhor voou

Quando meu filho nasceu, fiquei esperançosa para ouvir sua voz  e a palavra tão sonhada “mamãe”, tão logo isso aconteceu, minha ansiedade era vê-lo andar, depois correr, cantar, ir para a escolinha, desenhar, ler, escrever… vivia o presente, mas a ansiedade sempre me levava ao futuro, naquela contradição entre vê-lo crescer e a vontade de que ele continuasse a ser um bebe.

Aqueles momentos onde éramos somente nós dois, poderiam ser eternizados, sua mãozinha no meu seio, seus olhos fixos aos meus, seu sugar profundo e sua respiração doce.

Aos poucos ele foi crescendo, adquirindo independência, sua personalidade já começava a dar sinais, seus gostos, suas vontades, seus sentimentos já ficavam claros. Ao mesmo tempo em que ele ia se relacionando com outras pessoas, já estávamos a começar uma transação do desapego, as viagens com a turma da escola, o dormir na casa dos amigos, os finais de semana na casa dos avós, tudo era tão sutil que eu não percebia que a partir desses singelos momentos, já estávamos a trabalhar sua liberdade.

Essa liberdade chegou cedo, 18 anos e você voou. Posso estar dramatizando, afinal de contas eu sai de casa com 16 anos, mas não é a idade, é a história de vida, e a nossa história amadureceu-lhe antecipadamente. Eu sabia que esse dia chegaria, que ele cresceria e sentiria a necessidade de colocar em prática o que aprendeu. Chega um momento em que queremos nos afirmar como pessoa, sentimos necessidade de provar que podemos cuidar de nós mesmos sem muito se importar com os “detalhes” (casa, comida, roupa, despesas, etc…etc), a vontade de voar é tão imensa, que o importante é descordar de tudo que os nossos pais falam, porque nesse novo universo de jovens, eles sabem tudo, e nós? Nós somos ultrapassados, presos em valores antigos, numa educação que já não funciona, a internet é o sabe tudo do momento.

E então chega o tão sonhado dia da liberdade, o que parecia distante se tornou realidade. O tempo passou, você cresceu, sua “independência” chegou, é a transformação da vida, é a vida em movimento. Sempre apoiei suas vontades, “quase todas”, sempre amei te ver feliz dentro da nossa realidade, poder realizar seus sonhos sempre foi motivo de celebração.

Eu estou muito contente por ver seu primeiro voo, um pouco desajeitado ainda, despreocupado, desorganizado, mas é assim mesmo, a gente vai se adaptando, criando nosso próprio “estilo”, vamos colocando vida em um cantinho que já é chamado de meu.

Esse início para mim não é fácil confesso, parece que nosso amor vai acabar, aquela dependência que era motivo de vínculo já não existe mais, mesmo eu colocando obstáculos para lhe mostrar como sou imprescindível, tudo vai se tornando rotineiro, prático, fácil e sem importância. No fundo, eu só preciso me sentir amada.

Um pouco de paciência.

Quero mudar o armário de lugar, colocar em caixas o que para mim parece ser insignificante, quero escolher as cores para combinar com os móveis (pelo meu olhar em particular), e de repente, sou reprimida!

(ele) – Mãe, não mexe ai.

(eu) – Mas é só para deixar arrumadinho…

(ele) – Mãe, deixa assim por favor.

(eu) – Mas desse jeito vai ficar melhor.

(ele) – Simone, eu não quero que fique melhor, quero que fique do meu jeito.

Fico meio sem graça, sento na cama um pouco triste, respiro fundo e dou um meio sorriso para segurar a lágrima que tenta se formar, mas vou compreendendo, ele cresceu, ele voou.

Devo a partir de agora me recolher, o lugar de destaque não pertence a mim neste momento, sua urgência em querer conquistar o mundo inclui muitas outras prioridades. Tenho que aprender a conviver com sua distância, dar apoio a decisões que não mais participarei diretamente, comemorar vitórias que já foram celebradas.

Mas eu aprendo, nossos avós aprenderam, nossos pais aprenderam, preciso de uma vez por todas entender que amor não esta associado a segurança, apego ou dependência, o amor é alado (quanto mais livre ele for, mais será seu). Si quem eu amo esta feliz, eu também estarei feliz.

Estou entrando em mais uma nova fase da vida, um novo aprendizado esta surgindo e com ele novas escritas sobre a complexidade de ser mãe de alguém que agora pertence a vida.

Não estou colocando um ponto final, para uma mãe não existe isso, os papeis continuarão sendo os mesmos, ele filho e eu mãe, vamos dar sequência as nossas histórias, e o meu colo estará sempre aqui, cheio de amor para acolhê-lho.

Bons voos filho querido.

Simone Sampaio

8 thoughts on “Ele cresceu ou melhor voou

  1. Lindo texto Si, mas como diz Gibran em seu poema “Nossos Filhos”, chegou a hora do Bruno seguir a própria estrada, que vc tão bem pavimentou .
    Cortar o cordão umbilical é doloroso mas faz parte dessa vida. Bjo no coração ❤️

    Vossos filhos não são vossos filhos.
    São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
    Vêm através de vós, mas não de vós.
    E embora vivam convosco, não vos pertencem.
    Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
    Porque eles têm seus próprios pensamentos.
    Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
    Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
    Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
    Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
    Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
    Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
    O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
    Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
    Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
    Pois assim como ele ama a flecha que voa,
    Ama também o arco que permanece estável.
    Khalil Gibran

  2. Simone, você me faz introspectar e entender o que que viveu minha mãe, todas as agruras dos momentos, todas as alegrias comemoradas com as conquistas, mais feliz em me ver feliz, do que a sua própria felicidade. Por dentro querendo conviver com suas crias eternamente. Mas com que dor convencendo-se da necessidade de liberar o voo, passando a rezar continuadamente para que o sucesso apareça. Simone, você voou fundo!!! Que bom isso… Parabéns!!!

    1. É professor, no fundo temos sempre os mesmos sentimento, o amor incondicional. Nós como filhos não sabemos o que isso significa, mas como pais é impossível não sentir tanto amor. Amoooo seus comentários, quanto motivação eles me proporcionam. Grande beijo

  3. Si que lindo. Eu tô aqui chorando e pensando que posso passar por isso também. Aí que difícil. Não sei se vou conseguir. Mas nossos filhos são para o mundo…
    Muita força para você.
    Beijo

  4. É isso mesmo, a minha também está indo para longe viver sua vida, quebrar a cara ou fazer sucesso a vida é quem sabe mas as escolhas são deles como um dia foram nossas e só nos resta torcer para que sejam felizes e de vez em quando voem perto de nós. Eles cresceram e nós estamos crescendo também. Bjos.

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